.Pensamento, delírio e consciência do eu

Daniel Philippi de Negreiros

 

Pensar é um modo de consciência que consiste no estabelecimento de interações significativas, mediante a arranjos de relação dirigidos a objetos e fatos.

Todo pensamento é impulsionado por uma força diretriz que seleciona, filtra e orienta os seus conteúdos ideativos, concretos ou abstratos, reunindo-os em torno de um tema com uma finalidade, consciente ou não, segundo um curso pré-determinado.

O pensamento é o resultado da capacidade de organizar idéias de forma, curso e conteúdo harmônicos com as necessidades individuais e circunstanciais, necessitando, assim, de constância, organização e continuidade.

Distúrbios do pensamento:

a)Forma:

-Descarrilhamento: mudança súbita e inexplicável de uma idéia para outra. Em casos graves ocorre a "salada de palavras". Ocorre principalmente na esquizofrenia;

-Publicação: o paciente acredita que os outros podem ler o seu pensamento ou ainda quando ouve os seus pensamentos em voz alta. Assim como na leitura e na inserção, apresenta distúrbio na consciência do eu. Ocorre principalmente na esquizofrenia;

-Leitura: o paciente acredita que pode ler o pensamento dos outros. Ocorre principalmente na esquizofrenia;

-Inserção: o paciente acredita que outras pessoas inserem pensamentos na sua mente. Ocorre principalmente na esquizofrenia;

-Perseveração: é a aderência passiva, automática e obstinada a determinados temas, frases ou palavras, muitas das quais o paciente não consegue se desligar; ocorre em quadros de deficiência mental e demenciais.

-Prolixidade: é caracterizado pelo detalhismo irrelevante, apego a coisas insignificantes.

-Inibição do pensamento: ocorre quando há lentidão do curso. É uma dificuldade de elaboração intelectual, acompanhado de empobrecimento expressional. Pode ocorrer em síndromes depressivas.

-Fuga de idéias: ocorre quando há aceleração do curso, caracteriza-se pela incontinência verbal (logorréia). A idéia principal é desviada por constantes associações colaterais tênues ou livres. Ocorre em síndromes maníacas.

-Circunstancialidade: há a expressão do pensamento através de detalhes irrelevantes e redundantes, unidos por um nexo associativo, conseguindo finalmente chegar ao objetivo. Ocorre principalmente na esquizofrenia.

-Concretude: é a impossibilidade ou dificuldade de abstrair o significado simbólico de conceitos.

b)Curso:

-Lentidão: geralmente é acompanhado de lentidão na linguagem, é característico de síndromes depressivas.

-Aceleração: a linguagem também está acelerada (pode ficar rouco de tanto falar), é característico da síndrome maníaca.

-Interrupção: bloqueio (o paciente deixa a sentença incompleta) e roubo do pensamento (quando quer pensar, algo lhe "rouba", "puxa" o pensamento)

c)Conteúdo:

Sua característica básica é a alteração no tema do pensamento. É possível distinguir os delírios quanto a sua origem em duas grandes classes: o desenvolvimento e o processo. Os primeiros se originam de modo compreensível para nós, por vivências afetivas, etc. Já o outro grupo não é passível de entendimento, há do ponto de vista fenomenológico algo de último e derradeiro. Podemos assim relacionar o desenvolvimento às idéias deliróides, e o processo as autênticas idéias delirantes.

-Idéias sobrevaloradas: são falsas idéias tidas por verdadeiras pelo fato da personalidade se identificar com a idéia, e pela situação do indivíduo. Pode ocorrer inclusive em indivíduos normais por não haver comprometimento do juízo de realidade e da crítica. ex.: Homem ciumento casado com mulher atraente, e por esta ter amigos e usar roupas decotadas, acredita estar sendo traído.

-Idéias deliróides: nascem de um modo compreensível de outros processos psíquicos, ex.: paciente deprimido com idéias de ruína, paciente com humor exaltado acredita ser o presidente do mundo.

- Idéias delirantes: são juízos patologicamente falsos, cursam com lucidez da consciência mas há transformação da personalidade. O paciente realmente acredita (convicção extraordinária) em uma idéia falsa (impossível) à despeito de se tentar explicá-lo pela lógica ou experiência (ininfluenciabilidade / irredutibilidade). As idéias delirantes manifestam-se pelas percepções, representações e cognições delirantes.

IDÉIAS DELIRANTES

convicção extraordinária

Percepções delirantes

impossibilidade de influenciamento

Representações delirantes

Impossibilidade de conteúdo

Cognições delirantes

1. Percepções delirantes: a percepção do fato é normal, mas o paciente interpreta-o de forma alterada, ex.: "...tomei o médico por assassino, porque tinha cabelos tão pretos, nariz tão adunco..."

2. Representações delirantes: surgem como novas significações de lembranças da vida ou em formas de ocorrência repentina, ex.: "...numa noite impôs-se a mim de repente e de um modo muito natural e evidente que a Sra. L. é a causa provável destas coisas terríveis que têm me acontecido..."

3. Cognições delirantes: o paciente intui algo fora da realidade sem ser gerado por qualquer percepção. Pode estar relacionado a uma vivência delirante profundamente ligada ao sentimento, ex.: paciente que, ao ler a bíblia, acredita ser irmã de Maria, lendo trechos como uma vivência própria

 

Consciência do eu:

É um conceito que abrange o psíquico e o somático, relacionado à noção de existência do mundo exterior, "não-eu". Apresenta quatro características formais:

 

1. Sentimento de atividade: consciência da ação ("quando penso, sou eu que penso, as idéias me ocorrem").  Alterações:

- Consciência da existência: "sinto-me sem nome, impessoal, olhar rígido, como o de um cadáver, o espírito vago e geral, como o nada absoluto. Estou pairando, sou como se não fosse" (despersonalização).

-Consciência de execução: pensamentos feitos (não é dele, não sabe porque pensou), fugas ou subtrações (quando quer pensar algo "puxa" o pensamento), insuflação (as idéias me surgem de presente quando eu necessito, não são minhas), ações voluntárias influenciadas (não fazem o que querem, sofrem influências externas, sensação de que "é feito" e não que "eu faço"). Ocorre com muita frequência na esquizofrenia e também é conhecida como "vivência de influências".

2. Consciência de unidade: "sou um só num mesmo momento". Nas alterações o "eu" é dividido mas as duas partes estão presentes simultaneamente ao contrário do transtorno de personalidades múltiplas onde são alternadas. Ex,: padre/demônio num mesmo paciente, as duas partes entram em constantes conflitos. Ocorre frequentemente na esquizofrenia, se manifestando através da "dupla orientação", sendo o paciente ao mesmo tempo Jesus e João da Silva.

3. Consciência de identidade: "sou o mesmo que antes". Na alteração o paciente divide o seu "eu" no curso temporal, ex.: "não sou o mesmo que era até 12 de dezembro de 1902, aquele eu parece agora um anão dentro de mim", o paciente não se refere ao "anão" em primeira pessoa, e sim em 3ª.

4. Consciência do eu em oposto ao exterior e aos outros: também conhecida como consciência de oposição eu / mundo, é a separação clara entre o "eu" e o mundo ambiente. Nas alterações o paciente incorpora objetos ou pessoas "mais fortes", por exemplo, ao seu eu. Tem a sensação de que todos conhecem os seus pensamentos (leitura do pensamento).

 

BIBLIOGRAFIA:

A bibliografia está presente no programa da disciplina.

Neste seminário foram utilizadas, principalmente, as referências de número 1 e 2 da bibliografia básica e a número 1 da bibliografia complementar.