AS REAÇÕES PSICOLÓGICAS À DOENÇA E AO ADOECER

FLAVIANA DALLA VECHIA

Colaboração: PSICÓLOGA MÁRCIA LISBOA (HU)

 

Freud, em 1914, em seu livro "Sobre o Narcisismo: uma introdução", já definia bem o sentimento de um indivíduo atormentado pela dor: "deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo porque não dizem respeito ao seu sofrimento; (...) enquanto sofre, deixa de amar".

A doença é vista pelo indivíduo como uma ameaça do destino. Ela modifica a relação do paciente com o mundo e consigo mesmo. Desencadeia uma série de sentimentos como impotência, desesperança, desvalorização, temor, apreensão... É uma dolorosa ferida no sentimento de onipotência e de imortalidade.

É claro que o tipo e intensidade das reações vão variar de acordo com uma série de características da doença e do próprio indivíduo:

Pode-se dizer que tais reações variam em torno de três possibilidades:

Apesar de todos esses sofrimentos provocados pelo fato de se estar doente, pode-se dizer que os pacientes têm certos "ganhos" chamados de diretos ou primários e secundários. As gratificações diretas referem-se ao conflito inicial (interno) que gerou o sintoma psíquico. Para evitar o contato com a ansiedade que o conflito gera a pessoa "desenvolve" o sintoma e concentra sua atenção nele (e não no conflito e na ansiedade). Já os ganhos secundários relacionam-se aos ganhos externos que a pessoa recebe em conseqüência da doença: mais atenção, afastamento do trabalho ou de alguém, ganhos materiais, etc.

Assim, independente dos "ganhos" obtidos , todo processo de adoecer ativa mecanismos fisiológicos para restabelecer a homeostase e mobiliza defesas psicológicas no paciente. Entre as possíveis reações emocionais podemos destacar: regressão, negação, minimização, raiva e culpa, "depressão"#, "doctor shopping", rejeição, pensamento mágico e aceitação.

Qualquer profissional da área da saúde ao terminar de ler este artigo relembrou muitas situações nas quais sentiu essas mesmas emoções ao tratar seus pacientes. Isso é um grande aprendizado! Não são somente os pacientes que se sentem frustrados, atemorizados, mas também toda a família, amigos e profissionais envolvidos.

Assim, o papel desses profissionais é ver o paciente como um todo, ser sensível às reações do mesmo e mostrar as perspectivas reais que existem quanto a sua recuperação. Deve-se respeitar o "tempo interno" do doente e não forcá-lo a aceitar toda a verdade de uma vez!

 

BIBLIOGRAFIA:

ANGERAMI, Camon. E a Psicologia Entrou no Hospital. São Paulo: Pioneira, 1995. p.147

FENICHEL, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. Rio deJaneiro: Atheneu, 1981. p.131-155.

GAUDERER, E. Cristian. Abordagem Prática da Pessoa Cronicamente Doente. In: Revista Alergia Pediátrica. V. 1, n. 3, abril/junho, 1997.

NEMIAH, John C. Fundamentos da Psicopatologia. 2ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. P.253-271.