ATAQUE DE PÂNICO E SÍNDROME CONVERSIVA

Ricardo Alves

 

ATAQUE DE PÂNICO

O ataque de pânico é uma experiência marcante, inesquecível na vida do indivíduo. Caracteriza-se por uma crise súbita, inesperada, de medo intenso, acompanhado da sensação de perigo ou morte iminente e de sintomas e sinais somáticos, os quais incluem: Palpitações, sudorese, tremores ou abalos, sensações de falta de ar ou sufocamento, sensação de asfixia, dor ou desconforto torácico, náusea ou desconforto abdominal, tontura ou vertigem, desrealização ou despersonalização, medo de perder o controle ou enlouquecer, medo de morrer, parestesias e calafrios ou ondas de calor.

Os ataques iniciam-se subitamente, com os sintomas em um crescendo, atingindo um pico em 10 minutos e durando em média de 20 a 30 minutos.

Existem três tipos de ataque: os ataques Inesperados (não evocados), em que não há um ativador situacional; os Ligados a Situações (evocados), nos quais o ataque, quase que invariavelmente, ocorre logo após a exposição a um ativador situacional; e os Predispostos pela Situação, que tendem a ocorrer ligados a um ativador, mas não dependem deste.

O comprometimento dos indivíduos é variável, desde aqueles que são capazes de controlar as manifestações até os que são obrigados a fugir do local, procurar ajuda, pela incapacidade de se adaptar à crise.

A etiologia dos ataques é indefinida atualmente, mas há hipóteses baseadas em fatores genéticos, biológicos e psicossociais. Os genéticos se baseiam no fato da concordância entre parentes de primeiro grau e, principalmente, entre gêmeos monozigóticos, ser aumentada. As teorias biológicas se iniciaram com o fato dos sintomas se reduzirem com o uso de antidepressivos tricíclicos. Há várias teorias, baseadas em alterações do locus coeruleus noradrenérgico, no pH do Sistema Nervoso Central, entre outras. É importante ressaltar a associação entre ataques de pânico e prolapso de válvula mitral. A importância reside no fato de serem muitos dos sintomas comuns a ambos distúrbios. A teoria psicossocial considera os ataques como uma defesa mal sucedida contra impulsos provocadores de ansiedade.

Os ataques podem comprometer qualquer indivíduo, sendo uma causa freqüente de consultas psiquiátricas nos EUA. São mais freqüentes no sexo feminino, assim como na idade entre a puberdade e os 35 anos.

O ataque de pânico não é um transtorno por si só, ele deve estar inserido em um diagnóstico específico. Podem ocorrer ataques de pânico em vários transtornos de ansiedade, como o Transtorno de Pânico, Fobia Social, Fobia Específica e outros. Para o diagnóstico diferencial é importante caracterizar o contexto em que o ataque se dá.

No diagnóstico diferencial dos ataques entram as fobias, depressão, ansiedade, histeria, doenças orgânicas e abuso de álcool e drogas, feocromocitoma.

É importante salientar a existência do Transtorno de Pânico, caracterizado pela recorrência dos ataques associada a um mês ou mais de preocupações acerca da ocorrência de novos ataques, de sua implicações e consequências. A Agorafobia ou medo de lugares abertos, está freqüentemente associada ao Transtorno de Pânico, se apresentando como um medo de sair de casa ou de situações em que torna-se impossível obter auxílio imediato ou fugir.

O Transtorno de Pânico e a Agorafobia podem implicar em alterações importantes no curso da vida dos pacientes, podendo levar a um elevado grau de incapacitação.

O manejo dos ataques de pânico é baseado no esclarecimento do paciente acerca da enfermidade, na eliminação de uma doença orgânica como etiologia e no tratamento farmacológico. Benzodiazepínicos são usados para um efeito "antipânico", podendo se associar beta-bloqueadores para a remissão/redução dos sintoma somáticos como a taquicardia. No caso do Transtorno de Pânico, considera-se ainda a psicoterapia e o uso de antidepressivos: Tricíclicos, Inibidores da Monoamina Oxidase e Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina.

Deve-se sempre considerar que o uso de Benzodiazepínicos pode causar dependência física, o que faz com que seu uso no Transtorno de Pânico fique restrito aos casos de ansiedade extrema por curtos períodos - até um mês - enquanto se aguarda a instalação dos efeitos dos antidepressivos.

 

TRANSTORNO CONVERSIVO

Trata-se de uma situação que envolve perda ou alteração na função motora ou sensorial voluntária, não sendo explicada por doença clínica ou outro processo fisiopatológico conhecido. Tais condições não podem ser decorrentes da influência direta do paciente sobre elas, como acontece na simulação.

Os sintomas sensoriais são anestesia e parestesia, principalmente de extremidades, como a anestesia em meia-e-luva. Os sentidos especiais podem ser acometidos, ocasionando cegueira e surdez, por exemplo. Importante notar que as vias sensoriais encontram-se intactas, podendo o paciente acometido de cegueira conversiva caminhar sem se ferir.

Entre os sintomas motores estão movimentos anormais, fraqueza, paralisia, tremores e outros. Os sintomas na maioria das vezes pioram quando se dá atenção a eles. Paralisia e paresia não respeitam os trajetos neurais. As vias motoras também estão intactas.

Existem 4 subtipos de transtorno conversivo, divididos em relação à natureza de seus sintomas:

Outras características são o ganho primário, obtido pelo paciente por manter os conflitos internos fora da consciência; o ganho secundário, referido às vantagens que o paciente obtém por sua enfermidade. La belle indifférence seria a atitude do paciente, indiferente a um sintoma sério. Modelagem é um conceito que se refere ao fato de que os pacientes podem, inconscientemente, seguir a um modelo para seus sintomas, caracterizando a identificação. Por exemplo, podemos citar o caso de uma senhora, mãe de um paciente que teve paralisia em um membro, que teve a mesma alteração, sem causa orgânica aparente.

Os episódios geralmente têm curta duração, com início e fim súbito, e nestes episódios normalmente apenas um sintoma se manifesta.

A etiologia segue duas teorias. Uma, a psicanalítica, diz que a conversão advém da repressão de conflitos intrapsíquicos inconscientes, convertendo a ansiedade em um sintoma físico. Desta forma, o corpo expressa estes sentimentos. Por exemplo, uma paciente que se sentia "paralizada" diante de uma situação que não sabia como resolver não conseguiu mais movimentar os membros inferiores. Outra teoria acredita em uma base neuropsicológica, para o transtorno.

O transtorno é duas a cinco vezes mais freqüente entre as mulheres, e a faixa etária mais comumente acometida é a de adolescentes e adultos jovens. A incidência é mais alta entre indivíduos de baixo nível sócio-econômico, em populações rurais e em pessoas com pouca instrução.

O diagnóstico do transtorno conversivo passa pelo problema de descartar a existência de uma condição clínica como causa dos sintomas. No diagnóstico diferencial se incluem transtornos neurológicos, tumores cerebrais, esclerose múltipla, transtorno de somatização, simulação, esquizofrenia. Vale ressaltar que o paciente cujas queixas se limitem ao funcionamento sexual tem um diagnóstico de disfunção sexual, e não de transtorno conversivo.

Diagnóstico e tratamento dependem de um exame clínico minucioso. Descartadas as causas médicas, pode-se sugerir ao paciente uma abordagem psicológica para o tratamento, com terapia focalizada em questões de estresse e enfrentamento. Psicanálise e psicoterapia orientada para o insight também são usadas. Alguns casos respondem bem à hipnose, ansiolíticos e exercícios de relaxamento comportamental. Psicoterapia de curto prazo também é usada, já que quanto maior o tempo que o indivíduo passa na condição de doente, mais difícil torna-se o tratamento.

 

BIBLIOGRAFIA:

A bibliografia está presente no programa da disciplina.

Neste seminário foram utilizadas, principalmente, as referências de número 3 da bibliografia básica e número 2 da bibliografia complementar.